1 de novembro de 2010

A sociedade da informação e a economia do conhecimento (ou a Sociedade e a Economia do mais ou menos isso)

Sou socióloga de formação e aprendi que as sociedades se podem caracterizar a partir de diferentes variáveis, tendo em conta os contextos socio-históricos e os regimes políticos que as enquadram. Nestes últimos anos temos visto a sociedade apelidar-se de sociedade 'da informação' a que se alia, quase sempre, em segundo lugar, a economia do conhecimento.
Nesta classificação a sociedade contemporânea é vista como um conjunto de relações e interacções sociais que se baseia e valoriza cada vez mais a informação que os indivíduos ou as instituições possuem ou a que tem acesso. Esse é a mais preciosa mercadoria no contexto actual. E, por isso, ganha sentido também a ideia de que a economia se deve basear no saber e no conhecimento cada vez também mais complexo e avançado.
Para competir nesta economia e com base neste tipo de organização social os sistemas educativos e de formação das pessoas têm um papel crucial. As escolas e as instituições educativas e formativas várias (centros de formação profissional, empresas, associações de desenvolvimento local e regional e outros) têm uma enorme tarefa e uma imensa responsabilidade face aos efeitos que as suas acções acarretam.
Educar ou formar hoje é necessariamente diferente do que se pedia e fazia, por exemplo, há 100 anos. Os desafios são totalmente diferentes, os recursos pedagógicos e humanos também, as próprias instituições educativas são hoje contextos radicalmente diferentes das que se tinham há apenas um século para cumprir as mesmas funções e papéis. Se tudo mudou, os resultados tabém têm de ser necessariamente diferentes, não é assim? Mas diferentes como? Para melhor? Para pior? Para mais eficientes? Para mais eficazes? Para mais aprofundados? Para mais transversais? Para mais específicos?

Os resultados dos processos de ensino-aprendizagem deveriam ser um dos principais objectivos dos sistemas de educação-formação. Mas hoje as escolas e os seus diferentes agentes (professores, órgãos de gestão, alunos, pais, funcionários, parceiros diversos) preocupam-se com objectivos também eles mais diversos: garantir a equidade! integrar todos! trabalhar com os parceiros da comunidade! ganhar eficiência e eficácia na gestão dos recursos! garantir a disciplina! garantir condições de trabalho adequadas para responder à diversidade social! .... .... 

E, no meio de tudo isto, será que em cada 90 minutos de aula, em cada dia de escola, em cada período de avaliação, em cada ano escolar cada um desses agentes faz a devida avaliação sobre o que ensinou, o que aprendeu, o que lhe ensinaram, o que aprenderam...

Enfim, a pergunta fundamental: que conhecimento foi adicionado e que informação foi transmitida e incorporada em cada hora de trabalho numa instituição educativa, garantindo assim que a escola está a responder aos desafios da sociedade em que se integra?

Sou das que acha que as escolas e as instituições educativas em Portugal cumpriram bem o seu papel de democratizar o acesso dos alunos (de todos os alunos) à escola (principalmente através da escola pública) mas será que não deveríamos estar já a questionarmo-nos sobre os resultados dos processos de ensino-aprendizagem?

Tenho tido acesso a um conjunto de alunos que sairam do ensino secundário há dois anos e são por isso 'filhas e filhos' da escola democratizada, aberta, inclusiva e participativa. São cidadãos de plena voz, têm mais de 18 anos, podem exercer o seu direito de voto, são alunos universitários e por isso podemos dizer que o ensino superior os seleccionou. E o que sabem?

Sabem muitas coisas, ou melhor, sabem onde procurar informação sobre muitas coisas. As tecnologias de informação e comunicação são ferramentas quotidianas de interacção social, de trabalho, de estudo, de lazer. Têm muita confiança em si próprios. São na sua maioria jovens muito bem integrados e pertencentes aos grupos mainstreaming das culturas juvenis. E quando se lhes pede que apresentem um conceito que é discutido num texto científico (ou académico) não conseguem fazê-lo sem recorrer, em primeiro lugar, ao Power Point (ou aplicação semelhante), em segundo lugar, a uma definição básica e simplista (quer em termos de linguagem quer em termos dos seus elementos fundamentais), e em terceiro lugar, quando não sabem o que dizer mais... dizem "ou mais ou menos isso".

Rigor? Definição e discussão conceptual ou teórica de teorias ou princípios de acção? Corpos teóricos em relação com propostas metodológicas? Nada!

Tudo mais ou menos isso...é esta a sociedade da informação e a economia do conhecimento que os nossos sistemas de educação-formação conseguiram produzir... uma sociedade do mais ou menos isso!!

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