4 de setembro de 2015

"Com papas e bolos se enganam os tolos"

Paulo Portas é acima de tudo um "marketeiro"! No programa "Temos uma pergunta para si", ontem, na TVI, em plena pré-campanha para as eleições legislativas de 2015 transmitiu à exaustão a mensagem política eleitoral da coligação Portugal à Frente (PAF).

A mensagem é simples, e por isso de fácil compreensão, especialmente concebida para atingir um eleitorado menos atento, menos qualificado e também menos preparado para analisar mensagens de maior complexidade e exigência.

Ora vejamos: 1º. regresso à primavera de 2011; 2º. insistência no risco de "bancarrota" iminente deixado pelo governo PS; 3º. assistência internacional à força para pagar "salários e pensões"; 4º. governação sob "protectorado" permanentemente recusado pela coligação; 5º. afirmação continuada e comparativa de que "Portugal não é a Grécia"; 6º. o país agora está no caminho certo - economia cresce, desemprego diminui, exportações disparam...

Foram 90 minutos de pura propaganda política, com Portas no seu melhor! Mas no caso dele, quanto melhor, pior! E assim foi.

Comecemos, então, por desmontar cada uma das premissas.

A conveniência do regresso a 2011. Lembrar Sócrates, o seu governo, o seu legado, as consequências de uma governação, segundo a coligação, sem rigor financeiro nem responsabilidade colectiva. O argumento certo para afirmar que votar PS novamente significa regressar ao passado, ao despesismo, ao facilitismo, à asfixia democrática, e por aí fora. Marcando temporalmente 2011 como o ano de comparação, a permanente evocação de Sócrates está garantida, mesmo que a ele pessoalmente, não se possam referir durante a campanha.

O papão da "bancarrota". Em 2011, o risco existente nos mercados financeiros que condicionava por essa altura o financiamento da economia e do Estado português, assentava numa dívida pública a rondar os 90% e um crescimento em redor de 1% do PIB, em decréscimo para uma recessão consequência das medidas de austeridade já implementadas. Hoje, a dívida pública é cerca de 40 pontos percentuais acima do valor de 2011, e o crescimento económico aproxima-se timidamente de 1,5% do PIB. Passou o risco a ser significativamente menor? Não! O que passou a existir foi uma operação de compra de dívida dos países da UE por parte do BCE que permite uma percepção de risco diferente. A bancarrota que paira sobre as nossas finanças públicas é superior, dado o volume de dívida pública e a contração da capacidade dos agentes económicos nos últimos anos. Se o BCE suspendesse as suas operações de financiamento dos Estados-membros, a ilusão dos "cofres cheios" e do "défice controlado" passaria a uma negra confrontação com a triste realidade de um estado mais pobre, menos capaz e mais dependente.

Os salários e pensões que ficariam por pagar, escondem os milhões transferidos directamente para o sistema financeiro. Até a Grécia, continua a pagar salários e pensões, após três resgates financeiros e o eminente colapso do sistema político.

Governar com a troika era o paraíso prometido pela coligação PSD/CDS quando em campanha eleitoral para as legislativas de 2011. O Memorando de Entendimento foi negociado com os dois partidos sentados à mesa das negociações e celebrado com "usies" de apertos de mão na sala de reuniões da casa de Eduardo Catroga. Recusar agora as medidas constantes no memorando como se de um xarope amargo se tratasse, o qual foram forçados a engolir, é a mais conveniente das falsidades, e só Paulo Portas o poderia fazer de forma tão cinicamente "irrevogável".

A comparação entre Portugal e a Grécia serviu sempre o propósito de "dividir para reinar". Se, Portugal não é a Grécia, muito custou aos países do Sul essa desunião, face a uma Europa dividida por preconceitos mais ou menos vagos entre os "povos do Sul" e os "povos do Norte". Portugal é a Grécia, Grécia é Portugal, e no contexto de uma União Europeia forte, todos os países são Europa. Esse sim, é o caminho certo e não o da acusação mútua para fazer crescer uma divisão artificial entre um "nós" e "eles" que acarreta consigo a destruição dos princípios fundadores de solidariedade e coesão constantes nos tratados.

E, finalmente, a "boa nova". Tudo está bem, quando acaba bem, e os salvadores devem ser recompensados. Tudo flui positivamente! "Os dados são do INE, não são do governo! Dei sempre o meu melhor em favor do meu país!" Tudo palavras proferidas ontem por Paulo Portas. Os 300 mil a menos na população activa? Não existem! O emprego recuperou 120 mil postos de trabalho! As exportações atingiram 43% do PIB, a preços constantes, dados do INE, sempre! Resultado da diplomacia económica... mas, desculpem-me não fui eu que inventei o conceito!! Como, Dr. Portas? Não foi capaz? Um estratega das relações internacionais...
Os estágios que o PS quer acabar! Não, Dr. Portas, o PS não quer acabar com os estágios. Quer, sim, acabar com os estágios não remunerados que contribuem para modelos de relações laborais desadequadas numa sociedade desenvolvida e numa economia de mercado.

E a economia? A economia cresce...

E o Senhor, Dr. Paulo Portas, qual foi o seu papel nesta maravilhosa transformação de Portugal numa país mais pobre, com menos exigência cidadã, com menos oportunidades, mais desigual, mais envelhecido e mais frágil perante as grande potências europeias?

"Eu, eu? orgulho-me muito de ter sido o Oliveira da Figueira!!!"

Obrigada, Dr. Portas, mas vendedores de banha da cobra já não são necessários. A tempestade foi mesma séria e ninguém tinha dinheiro para comprar os seus guardas-chuva no meio do deserto...

Espero, sinceramente, que a próxima demissão seja mesmo irrevogável!

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